Realização, pedagogia, criação e exibição de audiovisual.

sábado, 2 de abril de 2011

Entrevista Exclusiva om Paulo Ciranda

Paulo Ciranda, músico nascido na cidade de São Fidélis - RJ conversa conosco. Fala de sua música e nos alimenta com sua humildade.
Paulo já participou de 3 Cine Clipes no projeto Cinema Possível. Vamos conhecê-lo melhor nesta entrevista concisa.


Cinema Possível – Sempre quis saber porque você adotou o nome de Paulo Ciranda, existe uma história por trás deste nome? Qual?
Paulo Ciranda - A partir da canção que fiz com Antonio Roberto Fernandez chamada “Ciranda” com a qual fomos premiados nos festivais de São Fidélis e Bom Jesus do Itabapoana.

CP  – De que maneira um profissional da música se encaixa hoje, num mercado tão diverso e às vezes caótico desses dias atuais.
PC - É difícil dizer sobre a situação geral; no meu caso tenho que me virar produzindo, gravando, dando aulas, fazendo shows...diria que o trabalho chega a ser o meu descanso.

CP - Traçando uma linha do tempo na tua carreira como músico. O que mudou? O repertório manteve-se, houve mudança de estilo?
PC - Tudo muda inclusive nós mesmos, não é? Mas havia maior democracia nos espaços de apresentação dos trabalhos do músico. Estarão sempre surgindo novidades, mas isso não pode impedir a preservação do que apareceu antes.

CP – Quem são os músicos que fizeram a tua cabeça, que tipo de som você curtiu e curte até hoje?
PC - Desde a raiz do folclore passando por Pixinguinha, Luis Gonzaga ao Clube da esquina, Tropicália, Handel, Bach, Beatles, Cat Steven, enfim, encheria a página...

CP – Existe uma diferença em conceber uma música a partir de um poema de alguém ou a partir de uma parceria de letra, qual a diferença?
PC - A diferença está nos limites e no respeito à métrica do poema que já está pronto, por outro lado quando se faz a música primeiro, o som é que te encaminha.

CP – Como você vê a realidade do audiovisual hoje, com a internet, repaginando e dando imagens a músicas? Você costuma assistir videoclipes? O que o videoclipe acrescenta na linguagem de um artista da música?
PC - Acho super positiva a soma do visual ao áudio, confesso que não assisto a qualquer vídeo, mas acho que o videoclipe pode enriquecer muito o entendimento da mensagem poética e musical.

CP - Quem é Paulo Ciranda por Paulo Ciranda?
PC - Eu sou apenas um compositor popular, uma pessoa simples e que tenta ser um ser melhor a cada dia. Desejo a todos muita paz no coração e um grande abraço cirandeiro.

Veja os cine clipes com Paulo Ciranda







domingo, 27 de março de 2011

Entrevista Exclusiva com Karol Schittini.


Nasceu em Coronel Fabriciano, interior de Minas Gerais. Criada descalça com pomar no quintal. As margaridas, seus pais e vizinhos eram o público até os 11 anos, quando subiu no palco pela primeira vez. Dança, recita poesia, faz acrobacias e escreve em qualquer lugar.

Karol Schittini fotografada por Alexandra Arakawa - 2010.
Cinema Possível  – Fale um pouco da sua Trajetória como atriz.
Karol Schittini – Fiz a Julieta na escola como atividade extra-curricular, uma adaptação para crianças, eu tinha 09 anos. Aí não parei mais. Comecei com o diretor Ricardo Maia. O grupo iniciou com 20 pessoas e estreiou com 4. Percebi que seria assim, instável para o resto da vida! Aos 10 anos, conheci mitos gregos e um pouco de História do Teatro e fiquei maravilhada com o Rito. Aos 11, subi no palco e circulei com a peça. Aos 12, vi a Fernanda Montenegro em cena. Não dormi naquela noite e voltei na seguinte, pois a classificação era 16 anos. Aos 13, li pela primeira vez a triologia do Stanislaksvi, depois segui com Grotowski, Boal e Brecht. Estes últimos, que levaram minha arte pra rua. E as fichas foram caindo ao longo dos anos... Aí fui querendo e fazendo teatro sempre. Fiz infantis, dramas, absurdos, comédias e tragédias.
Há dez anos, nasceu a Palhaça Cor Iza, quando comecei a desenvolver e ministrar a Oficina de Dramatização Infantil. O Peter Brook e o teatro oriental conheci na academia, na Graduação em Artes Cênicas/ UFMG. Depois vim para o Rio de Janeiro e estudei na Escola de Teatro Martins Pena.
Já tinha feito danças clássicas, e veio o Flamenco, dança indiana e as danças populares brasileiras. E Butoh, e o circo. Além da música, minha companheira.
É que tudo foi cabendo dentro do teatro...
O teatro pra mim é ação. Sentimento, emoção, catarse e reflexão; brotam do agir.

CP – O que o teatro pode modificar na vida de uma pessoa?
KS - Pode abrir um infinito leque de possibilidades de ver, ouvir e movimentar-se no mundo. Ele propõe a libertação dos medos, dos tabus e das convenções pré-estabelecidas e impostas; ensina o poder de crer, acreditar e realizar, porque habita no Vale Fértil da Criação Eterna.

Cor Iza, personagem de Karol Schittini, palhaça, que já tem 10 anos de
existência.
CP – Quais os filmes que você viu e gostaria de compartilhar com os
entusiastas do projeto Cinema Possível?
KS - Almodóvar, sem palavras.
Sou amante do Bergman.
Tem um documentário sobre Pierre Verger, com Gilberto Gil.
Cisne Negro, que está em cartaz, tem um roteiro bem elaborado.

CP – O que você tem feito atualmente relacionado a cinema e teatro?
KS - Atuo no repertório do Teatro Trupiniquim desde 2009 e nossa atual montagem é Cordel do Amor sem Fim, texto de Cláudia Barral.
Tem na boca do forno o monólogo Residência no Redemoinho, inspirado na obra do Guimarães e Neruda.
A Palhaça Cor Iza está distribuindo cores e flores por aí, nas ruas, livrarias e museus com brincadeiras populares e números de circo.
O curta “O Sol Manchado de Vermelho”, onde faço uma participação, está circulando em alguns cines e festivais.
Cena do filme Universo Caio, realização do projeto
Cinema Possível - 2008

CP – Fale um pouco de literatura. O que você lê, leu e gostaria de ler?
KS - Eu aprendi que escrever é todo dia, igual comer e dormir. E ler também. Literatura é uma via de mão dupla. Uma frase qualquer, uma palavra, qualquer coisa é a poesia do dia. Até desenhar significa escrever... E ainda tem exercício da Literatura Oral, contando histórias e ouvindo os causos de qualquer pessoa.
Agora leio mitologia e lenda africana, como estudo individual da formação da oralidade brasileira. Na cabeceira tem Pessoa, Guimarães, Florbela Espanca, Galeano, Neruda, Clarice Pinkola, a Bíbila, medicina e poesia oriental.
Conheci o Rimbaud através de Iluminações, uma estadia no inferno. Ótimo!
Vivo catando os poetas/escritores brasileiros... de todas as épocas; e sou fascinada pelo estudo dos ritos e religiões do mundo.
A Filosofia faz um alinhavo de vez em quando.
Separo sempre escritos de algum meu amigo para apreciar.
Leio dramaturgia, mas demoro mais, porque ela vai se encenando na minha cabeça, as primeiras impressões já tomam autônoma forma.
Não gosto de Machado de Assis, me cansa. Hahahahaha, pronto falei!

CP - Como foi a experiência de fazer um filme com o projeto Cinema Possível? O que isso acrescentou à sua vida artística?
KS - Foi uma porta aberta, como um clique, um estalo, a realização no agora, sem melindres. Eu já amava o cinema. Os caminhos vão se cruzando em perspectivas. Sou muito grata à vida por ter me transversalizado com o Jiddu, junto ao Cinema Possível. Ainda mais experimentando de cara o Caio Fernando Abreu.
Tenho aprendido no Cinema Possível o tempo do cinema, enquadrar naturalmente a ação, fazer boas coisas com boas ideias e perceber que não é a qualidade do equipamento que determina, mas a qualidade da mente e intencionalidade do roteiro, além de “saber quando, como e de onde olhar” e isso abriu caminhos para outras produções.

CP – Quem é Karol Schittini por Karol Schittini?
KS - A melhor sensação do mundo é a de desaparecer, emprestar a própria matéria para comunicar. Eu amo o teatro.
Clique e assista nosso filme com a atriz
Karol Schittini.



Visite o site do coletivo TRUPINIQUIM clique AQUI
Saiba mais sobre a peça premiada "O Cordel do Amor sem Fim" AQUI

domingo, 13 de março de 2011

ENTREVISTA COM DALMO SARAIVA

Dalmo Saraiva, nascido em Angra dos Reis, poeta e brincante. Seu livro "URUBU", já esgotado, teve um dos poemas filmado pelo projeto Cinema Possível, em 2009. Neste entrevista vamos conhecer um artista que não é apenas poeta, mas que fez de sua vida um poema.


Dalmo Saraiva e seu personagem:
Sô da Mamãe.


Cinema Possível - Porque lidar com poesia? Não seria melhor fazer outra coisa? Faz sentido esta vida?
Dalmo Saraiva - Poesia? Eu não lido com ela não. Talvez ela é que me instiga... que me maltrata... que me faz chorar de vez em quando... que me faz rir... que me faz irônico... que me deixa perplexo diante da vida... que abusa de mim (esse corpo cansado e suado de tanto rodar o mundo)... O meu amigo Milton Aguiar tem uma frase que eu sempre uso e que acho o máximo: "poesia dá asas mas também dá azia". E aí? eu gosto mais das asas onde posso voar embora meus textos incomodem um pouco... mas confesso... confesso... deixa prá lá! Hoje ainda não cometi pecados... Lidar com outra coisa? Sim, eu lido com outra coisa mas a outra coisa nunca me dá uma lida. Sim! Faz sentido esta vida sim. Aliás, esta vida não é máximo? Você que lida com ela poeticamente e mimicamente não acha o máximo? Ixe!

CP - Mas não só lidar como também gostar, vejo que você tem um certo amor por Antônio Nóbrega, Denise Stoklos, Zé Ramalho. Quem mais?
DS - Rapaz! você consegue deixar meus olhos cheios d’água... espera aí! Deixa eu respirar. Tenho sim, Jiddu! Tenho um amor por Antonio Nóbrega sim... tenho uma profunda admiração pelo trabalho dele e pela pessoa que é. E além de tudo é um grande amigo além de ter sido meu professor. É pena que eu sempre fico em segunda época com grandes professores como ele. Mas é sempre bom
ficar em segunda época para que eu aprenda mais.... Para mim cada espetáculo do Antonio Nóbrega é sempre uma aula. Na verdade
vi todos diversas vezes... acho que o verdadeiro brasileiro deveria
conhecer o "Tonheta" e parar de ficar vendo a novela das oito.
A Denise Stoklos é a essência da essência. É o Teatro Essencial.
Aquele que eu gosto... aquele que busca e faz pensar... O Zé Ramalho? Eu me identifico com o pau de arara... com
o brejeiro... acho ele um profeta e quem ouve "Cidades e Lendas" se remete para distante buscando histórias e estórias... Quem mais? São tantos. O professor Ivan Proença é um deles. Ele é um dos responsáveis pela minha in- vestida no teatro de rua, no texto literário, na poesia, na cultura brasileira, na música regional, na música
dos repentistas, nos cantadores. Um outro é o Julinho Pimentel... uma figura extraordinária que me ensinou muitas coisas... São muitos, Jiddu! São muitos. Até os índios Carajás de Aruanã, em Goiás, me ensinaram e eu fiquei fã deles... Se eu pudesse e não posso, queria encontrar Guimarães Rosa... queria encontrar Euclides da Cunha.... Queria encontrar Mário de Andrade... queria encontrar Câmara Cascudo... são muitos...

CP - Você nasceu lá pras Bandas de Angra dos Reis, estive lá, me pareceu um dos lugares mais bonitos do Brasil, e a Usina Nuclear?
O Reinado de Dalmo Saraiva e seu personagem
Sô da Mamãe.
DS -  Sim! Nasci na cidade de Raul Pompéia. Aliás, na cidade não. Nasci no mato. Nasci no município de Lopes Trovão e Brasil dos Reis... Lá é um dos lugares mais bonitos do mundo. É pena que perdeu a característica de cidade colonial. Seus governantes não tiveram a sensibilidade de preservação da história. Lá ia ser
fundada a cidade do Rio de Janeiro. Lá surgiram os primeiros teatros do Brasil. Engraçado! e ninguém sabe mas está nos livros. Com sete ou oito anos fui morar em Tarituba, em Paraty e lá comecei o meu primeiro dia de escola. Paraty está preservada até hoje e a sua história atrai turistas do mundo inteiro e Angra dos Reis está deitada ao lado do Rio do Choro reclamando as mágoas por causa de homens sem raízes. A Usina Nuclear? Aquilo lá é a peste do século XXI. Já participei de diversos movimentos contra aquela praga mas aquele estopim não está cercada só de granadinhas de urânio...


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"Dalmo Saraiva tinha e tem razão, o flagelo nuclear continua"!

Os acidentes nucleares do Japão são lições 
para o mundo inteiro.
É hora ou já passou a hora de revermos o
que fizeram em Angra dos Reis onde colocaram
os estopins chamados Angra I e Angra II.
 E agora?
“Eles” que eram “CONTRA” Angra I e II,
aprovaram a construção e estão construindo
mais uma MALDITA chamada Angra III.
Plano de evacuação?
Vamos evacuar! Vamos evacuar!
SÓ SE FOR DE DIARRÉIA.

(Dalmo Saraiva)

O Drama do Césio 137, a contaminação nuclear 
no Brasil - Veja o vídeo.


CP - O que acontece nos recitais de poesia, há algum magnetismo?
DS - Você sempre aparece, gostam de você. É bom ser gostado?
Magnetismo? Não sei não! Não sou de aço. Sou de pedra. Tenho Saraiva e Rocha no nome e o que é do nome o bicho come.

CP - Você demonstrava estar feliz, de bem com a vida. Dá pra estar de bem com a vida?
DS - De bem com a vida? Não! É a vida que está de bem comigo. Jiddu, a vida é uma séria brincadeira e a brincadeira da vida é muito séria. Deu para responder? A vida é muito boa, meu caro! Você sabe disso!

CP – Porque o seu livro se chama "Urubu"? O que você tem contra as garças brancas?
DS - Eu não tenho nada contra as garças brancas não. Eu fundei a Sociedade Protetora dos Urubus.
É um bicho preto da alma pura (se tiver). Eu admiro o seu misterioso
olhar e seu vôo... é um dos seres mais ecológico no mundo... E tem mais: eu queria ele (o livro) todo negro e isso vinha me criando dificiculdades a nível financeiro mas a Thereza (Editora
Ibiz Libis) falou que isso não  era problema. Acreditei. Eu tenho que acreditar, pois também já andei lá pelo ACRE e tive contatos com os urubus. É preciso ACRE ditar. Eu ACRE dito.
Mas não é só os urubus que tenho admiração não. Tenho admiração por todos. O nosso humor vem dos macacos e a nossa graça vem da garça. É preciso preservar os homens para que possamos valorizar os
animais.


CP - Quem é Dalmo Saraiva por Dalmo Saraiva?
DS - Jiddu! acima de tudo, nos conhecemos há bastante tempo e na verdade não sei muito bem quem eu sou. Ainda estou me procurando e quando penso que me achei, aí, eu escapo de mim mesmo. Eu participei de um workshop há algum tempo com uma pessoa sensacional que se chama Jorge e numa parte desse evento maravilhoso, cada um vai falar de si. Eu dizia na roda de pessoas (mais ou menos trinta) que eu era dois mas ainda existia um  terceiro... estou delirando? Acredito que não e até fico chateado comigo mesmo quando me taxam de maluco. Coisa que não sou.... apenas sou um experimentalista... um ousado... um irrequieto... um ser amigo dos criadores com quem aprendo e descubro uma parte de minha pessoa... essa pessoa que quando criança pulava as cercas dos circos poeiras na minha cidade para assistir as simples cenas dos palhaços pobres materialmente, porém ricos espiritualmente... é isso... e não pode ser aquilo.

Urubu, um filme do projeto
Cinema Possível a partir do
poema de Dalmo Saraiva.



terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Entrevista com Cristiane Grando

Ela é a Autora do livro "FLUXUS" que inspirou o filme de mesmo nome e  que é um dos orgulhos do projeto Cinema Possivel.
Vamos conhecer a vida, a obra e os projetos de Cristiane Grando.


CINEMA POSSIVEL - Algumas pessoas dizem que estudar, estudar e estudar pode ser uma vocação ou até mesmo um impulso em direção a algo misterioso que nunca se encontra. Você, evidentemente que, sendo muito jovem, tem tido uma dedicação plena à leitura e à busca do conhecimento, o que a coloca num patamar de menos de 5% da população brasileira. Você se sente só? É uma forma de fugir da morte? É um senso de compromisso?
CRISTIANE GRANDO - Ler me proporciona, muitas vezes, o prazer da descoberta. É uma forma de desvendar um pouco mais o mundo. Assim como viajar. A leitura de textos de literatura mexe muito com o imaginário; você lê e imagina os personagens, os cenários que eles frequentam... A literatura trabalha com a imagem acústica: os escritores descrevem cenas, pessoas, relacionamentos, mas boa parte do que o leitor enxerga mentalmente ao realizar uma leitura depende de seu próprio imaginário e de suas experiências de vida.
No meu caso, a leitura tem um senso de compromisso pois sou educadora e escritora, o que me torna duplamente responsável por tudo o que falo e escrevo. A leitura funciona como um meio de busca de conhecimentos mais profundos dos assuntos que abordo em aulas e livros.
Muitas vezes também leio para me sentir só. A solidão necessária para ler me faz bem; sinto-me em paz, sinto-me instigada a criar... É maravilhoso ler, especialmente quando estou num ambiente de silêncio.

CP - Uma tese de Doutorado sobre Hilda Hilst na USP, um Pós-Doutorado na UNICAMP... a escolha foi uma provocação?
CG - Quando decidi estudar Hilda Hilst, em 1995, não tinha muita ideia do compromisso que estava assumindo. A Hilda merece ser estudada, aliás, se me permitem uma sugestão, diria que todos os poetas jovens deveriam conhecer profundamente a obra da Hilda Hilst, pois é uma experiência de crescimento enquanto ser humano e enquanto ser que utiliza a linguagem de forma inovadora e poética, questionando sempre o mundo, as atitudes e pensamentos dos seres humanos.

CP - Como se deu seu primeiro contato com Hilda Hilst!?
CG - Lendo seus poemas. Foi uma experiência tocante! Amava tudo o que lia e não compreendia bem o porquê. A Hilda consegue transmitir todo um universo da mulher-amante e da poeta, da mulher que assume seu espaço em pé de igualdade com o homem, num mundo dominado geralmente pela visão masculina. A Hilda foi longe com seu trabalho literário e suas atitudes na vida em sociedade, contribuindo muito certamente para a conquista de um espaço feminino de direitos iguais entre homens e mulheres. Sempre lutarei por isso e vejo na Hilda uma inspiração nesse sentido. A Hilda como pessoa é extremamente generosa. Mas, num primeiro contato, costuma provocar medo, estranhamento e encantamento ao mesmo tempo. A Hilda é muito diferente da mulher e do homem convencionais; é inteligentíssima, um ser de muito valor, com uma profunda sensibilidade. É alguém que leu muito e refletiu sobre a vida, o mundo, os relacionamentos humanos. Seu conhecimento, de tão amplo, acaba provocando medo em algumas pessoas, o que a deixa triste. Acho que ela não compreende que é vista e valorizada por muitos como se fosse uma cordilheira, por sua grandeza e imensidão, o que algumas vezes pode provocar um certo frisson.

CP - Da pequena Cerquilho-SP, você conquistou o título de doutora pela USP, fez pós-doutorado na UNICAMP, viveu na França onde se especializou e ainda tem esta movimentação rápida de estar circulando pelo imenso Brasil. Agora uma carreira de Docente na República Dominicana. O mundo é hoje uma grande Cerquilho ou Cerquilho é o mundo?
CG - As duas coisas. Minha proposta é atuar na região estando sempre conectada ao mundo, o que influencia certamente a forma de pensar e agir, tornando-a mais próxima à realidade e à expressão cultural e científica da atualidade. Tento conectar Cerquilho ao mundo através de minhas viagens, levando às pessoas que não saem experiências pelas quais passo. O projeto Jardim das Artes: espaço cultural e residência internacional de artistastem esse objetivo. Nesse momento, estou trabalhando com o arquiteto e professor Jorge Bercht. Com o Jardim das Artes e as atividades culturais municipais, Cerquilho deixará de ser uma cidade praticamente desconhecida para ser um ponto de referência cultural e de educação, um espaço de troca de experiências entre todos os interessados em participar de projetos de crescimento profissional e humano. Esse é meu desejo.

CP - O Brasil conhece pouco a poesia chilena e sei que você tem um amor por esse país. E agora também pela República Dominicana. Como você vê a possibilidade de um encontro maior da nossa língua e cultura com o que acontece nesses países?
CG - Conheci o poeta chileno Leo Lobos no Centre d´Art Marnay Art Center (CAMAC), onde moramos quatro meses, em 2002, realizando uma residência artística graças à bolsa UNESCO-Aschberg de Literatura no CAMAC, instituição francesa patrocinada pela Fundação Frank Ténot e pelo Ministério da Cultura da República Francesa, está localizada em Marnay-sur-Seine. Com o Leo, conheci muito da cultura chilena, de maneira viva e dinâmica, ao participar de eventos culturais em Santiago especialmente.
Moro há quatro anos na República Dominicana, onde vim como professora convidada pela Embaixada do Brasil e pela Universidad Autónoma de Santo Domingo (UASD). Há dois anos a Embaixada inaugurou o Centro Cultural Brasil-República Dominicana em São Domingos, do qual sou diretora-fundadora. Nesses quatro anos, aprendi a conhecer profundamente e a amar a cultura dominicana. Também foram anos de muita experiência como gestora cultural.
É verdade que nós, brasileiros, conhecemos muito pouco da cultura e da história dos países da América. Cabe a nós, artistas, mudar essa situação através de intercâmbios culturais, troca de informação via internet, viagens pela América e pelo mundo, divulgando nosso trabalho e de nossos contemporâneos, e estando sempre abertos, é claro, a conhecer, a estudar e a valorizar outras culturas.

CP – No Cinema Possível nós tivemos o prazer de filmar um poema seu muito importante: o Fluxus. Nosso projeto é de inclusão social. Como você percebe o fato de sua poesia circular por lugares muito diferenciados como escolas de ensino fundamental e comunidades de lugares como o Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Amapá?
CG - Maravilhoso! Viajar pelo Brasil em palavras e sons. Porque poesia é música. Mas um tipo de música diferente. É cantar apenas com a voz, com os fonemas. Seguir o ritmo que cada poema exige.
Ser parte de um projeto de inclusão social é também maravilhoso. Parabéns pela iniciativa de levar projetos culturais e educativos a várias partes do nosso país!

CP – Quem você lia, lê, lerá sempre? E quem você está lendo agora?
CG - Quem estará sempre em minha vida e em minha mente: Hilda Hilst, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Machado de Assis, Charles Baudelaire. Leituras da Bíblia, budismo, hinduísmo e taoísmo.
Atualmente, estou lendo e traduzindo ao português um escritor espanhol: Ignacio Sánchez. Trata-se de uma obra magnífica: `El Áfrika Star´. Ele viveu em Dakar por vários anos. Atualmente reside na República Dominicana. Pretendemos lançar este livro em espanhol, português e francês em vários países. Contamos com o apoio do artista plástico haitiano Sené Jean-Marcel e da pesquisadora e gestora cultural espanhola Mireia Tresserras, com quem estamos realizando vários projetos, entre eles traduções de textos literários, conferências sobre vários temas culturais e exposições de desenhos e pinturas.

CP – Você está apaixonada e flertando com a música. Há um encontro entre música e literatura? Na época de Vinicius de Moraes a crítica reclamava, dizendo que ele deveria ser só poeta. Arnaldo Antunes passeia pela música e pela pesquisa sonora, Leminski foi um multimídia e você, como se vê, neste panorama?
CG - 2011 é o ano da música em minha vida. Assumi o compromisso, com a Rádio Educativa Dominicana (RED), de realizar todas as sextas-feiras o `Sextarte: viernes musical´ no Centro Cultural Brasil-República Dominicana. Duas vezes por mês Elias Tejeda, da RED, coordena palestras sobre música dominicana; duas vezes ao mês eu me encarrego de realizar palestras ilustradas sobre música brasileira. A ideia é que o projeto cresça e que inclua música ao vivo na última sexta do mês. Também é o ano da música porque decidi realizar um sonho de infância: o de ser cantora. Encontrei um músico dominicano fabuloso, o Francis, que toca de cor muita música brasileira. Ele no violão e eu cantando encontramos boa sintonia. Estamos ensaiando e nos apresentando todos os sábados no restaurante catalão La Masia, na cidade colonial de São Domingos. Está sendo delicioso cantar, receber os amigos. Muito divertido e interessante, por difundir a música brasileira e porque estou estudando muito para ampliar o repertório. Além disso, o mais belo é que a alma se sente leve. As pessoas percebem e me perguntam: o que aconteceu... você está mais bela, mais feliz.
A música sempre fez parte da minha vida. Meu avô paterno, meu pai, tio e primos tocavam algum instrumento musical desde antes de eu nascer. Ou seja, fui gestada ouvindo música, nasci e cresci com música ao meu redor. Participei por muitos anos de coral infantil e adulto na igreja católica, quando era criança e adolescente. Por isso minha poesia é tão musical; porque tenho a música em meu mundo interior. Cada poema tem um ritmo único e exato.
Acredito muito no multiartista. Sendo vários ao mesmo tempo, ganha-se muito, porque as distintas modalidades artísticas falam muita coisa em comum. E circulando por várias modalidades, aprende-se sempre algo de uma que serve para desenvolver bem a outra. Assim acontece com as religiões. É uma bobagem um artista ou pesquisador se fechar em uma única área do saber, a menos que esse seja o seu desejo. Se esse é o caso, há de se respeitar. O que não aceito é que outras pessoas – ou críticos – queiram dizer o que um artista deve ou não fazer. A liberdade interior é a primeira condição para ser artista. E também para crescer espiritualmente.

CP – Quem é Cristiane Grando por Cristiane Grando?
CG - Mulher, acima de tudo. E cada dia mais feliz com meu ser, com meu corpo, comigo mesma. Buscando, a cada minuto da vida, me concentrar no presente. Ser um presente para o universo – o que cada um de nós deveria ser e como deveria se sentir com relação aos demais e ao cosmo.


Veja a bibliografia de Cristiane Grando, é só clicar aqui
Centro Cultural Brasil-República Dominicana aqui

FLUXUS
(fragmentos)


pensas
que sou feita
de carne, ossos, sangue?

não

sou vento, chuva, fogo, nada

às vezes
é bom sentir fome
para só depois morrer
de saudade

meu último poema:

insuportável a perfeição do gozo

sangue
vejo somente sangue

e chuva

para que a introspecção?
para que ver o obscuro?
  
me ama mas não me olha
com a profundidade
dos olhos que não vêem

sinto a falta de suas mãos

é como se no mundo
já não existissem
nem um pai
nem um deus

escrever pode ser um ato de amor
mas também o suicídio
das palavras

alguém canta ao longe
alguém canta em meus ouvidos surdos

náuseas
eu que estou quase morta
da vida e do silêncio

escrevo para ser
porque estou
e ainda corre
o vermelho da vida

escrevo num fluxo dinâmico de estrelas
num quase-escuro do quarto
para não ver as letras
para ver somente para ver

a perfeição

infernal o calor do corpo suando sob as roupas

sei da angústia de Virginia Woolf
e dos hormônios da mulher
que explodem como vulcões

tenho medo dos terremotos;
sou filha destes movimentos que moram desde sempre
em minha paisagem
que graça, leveza e peso
carregam as palavras e os filhos
que hão de chegar
um dia

poeta-escultor-de-silêncios-e-pedras
que doçura e amargo
suportam os fonemas e os versos

a morte e seu duplo vêm
seduções e mistérios
marmortemar
a morte vem
a morte que habita em mim
a morte e seus ecos

queria tanto ser homem
e talvez assim
pudesse ser menos
morte

abandono é o meu nome
meu ser gestado pelo tempo

cicatrizes no rosto
muito mais que as rugas

cicatrizes na cara
em que o mundo bate
e bate e bate
como o vento nas janelas
de uma casa abandonada

escrevo
como se fosse um só grito
na noite

escrevo, escrevo e escrevo
energia escura do multiverso

pluriversa-se a noite
e anoitece ainda mais

(Cristiane Grando)

_________________________________________________________________________


Bárbara Morais, atriz.


"Assim como o Teatro e a Fotografia, o Cinema deixa evidente uma forma de vida com muito mais sentido e significado do que a burocracia estável que a instituição familiar tradicional tanto recomenda. A possibilidade de transformar as descobertas nestes campos em uma atividade profissional e independente é algo que busco, sorrindo". 
- Bárbara Morais.



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